Mel
Honey - Robyn
Sete carros cinzas a setecentos metros de mim. Sete mil nuvens cinzas a sete mil metros de mim. Setecentas mil pessoas a setenta metros de meus pés. Sete vezes setenta: Deus perdoa. Sete dias por semana: Deus perdoa. Sete mortes por engano: Deus perdoa. Sete deuses perdoam o que Deus não perdoa. Isso ainda não conheço, mas sete palmos me separam do jugo, do jogo, do joio, do trigo. Campos de lavanda, campos de alfazema, e as sete cores do arco-íris me separam do sol, do sal, do sul, do norte. Sete carros cinzas seguem para o norte da cidade; escorrem. E o tempo vai de passageiro, dez pras sete, isso lá são horas de cantar? Sei que a voz é a morte, mas é tudo que eu conheço. E se Deus não perdoa a minha voz, que perdoe as minhas mortes. Que perdoe as minhas sortes. Que perdoe o meu norte e o meu sul, o meu sol, o meu sal, o meu oceano. Sete mares me separam de sete continentes e os barcos escorrem. E o sol se põe na água, mas lá no fundo a corrente é mais forte, é mais norte, é mais sorte, é mais morte, e Deus perdoa. Sete vezes setenta: Deus perdoa. E do trigo se faz o pão e no pão se encontram sete grãos e nos grãos se encontram sete mil mãos. Remando, dirigindo, matando, repetindo. Remando, dirigindo, matando, repetindo.
Remando
,
dirigindo
,
matando
,
repetindo
.
Deus perdoa quase tudo, mas não perdoa o destino. E com as mãos — as repletas e dignas mãos — sobre nós, canta logo cedo pela manhã: tu não receberás do que precisas, mas Eu tenho o que queres e tu sabes que Eu tenho para ti.
A voz de Deus ecoa do firmamento e irrompe os sete pecados em sete manequins. Sete mil vezes setenta mil nuvens cinzas setenciam as maquetes. Toda cor e todo sabor e todo ar que sussurrar Teu louvor será perda de tempo e perda de amor. Pois além dos mares e dos grãos, além das rotas e das mãos, além do sol e do pão, do pecado e da direção, ainda haverá o perdão. E a lavanda se fará colher. E o mel se fará escorrer. E o sul e o norte e a vida e a morte se farão permanecer. Para que sete vezes setenta vezes a vida se repita, acordando e celebrando o sol gasto e as nuvens cinzas, o mel dourado e os carros cinzas, os sete palmos e os sete dias. Deus remando e dirigindo. E matando e repetindo. E dizendo a quem tiver ouvidos: venha pegar o seu mel. E as nuvens cairão do céu. E os pecados me farão réu. E as vozes gritarão ao léu. Vida, morte, tanto faz, é o mesmo escarcéu! Deus perdoa quase tudo, mas não perdoa os que gritam mudos o Seu nome num quarto de motel.

