Alma Prateada
Silver Soul - Beach House
Está acontecendo outra vez. No mesmo caminho e na mesma rota, está acontecendo outra vez. Mudei os planos e refiz os destinos, mas está acontecendo outra vez. Preparei meus pés e meu espírito. Preparei os músculos como nunca antes havia preparado. Torci os dedos. Cuidei das feridas. Massageei os calos. Levantei os meus joelhos mais de quinhentas vezes numa só tarde. Eu me desfiz e me refiz, mas está acontecendo outra vez.
A lua firme no alto escalão celestial. A noite. O céu de estrelas que se aproxima a uma velocidade que eu desconheço. Entendo de velocidades. Acelero os passos e os ritmos. Mantenho o foco no horizonte do destino — refiz os destinos — e persigo. Procuro. Insisto. Assisto acontecer outra vez. Perdido.
Eles não gritam o meu nome. As bandeiras que se sacodem não são as minhas. Hinos serão cantados e pátrias serão festejadas, mas não eu. Não; a mim a lua. A mim a noite e sua teimosia eterna, que persiste em retornar e amargar o sabor dos meus passos. Eu acelero os meus passos outra vez, mas eu já nem sei mais o porquê. O que eu persigo ou deixo de perseguir: pouco importa. Tudo é luz aberta. Estômago seco. Suor em brasa. Meu filho.
Meu filho preso além das montanhas. Meu filho, meu sangue, meu eterno, meu depois de mim, meu eu fora daqui. Refiz os destinos e fui amado. Mesmo após o verão dourado, eu fui amado. A mim a lua, o prateado do luar, o segundo lugar. A derrota de quem ama demais. Eu acelero os meus passos outra vez, mas eu já nem sei mais o porquê. Meu filho, eu persisto, mas eu já nem sei mais o porquê. Refiz os destinos.
E o silêncio do esquecimento me atravessa. Me preocupa e me atormenta. Eu preciso precisar, eu quero querer, eu quero — o quê? Para quem? Está acontecendo outra vez, o fim de toda a derrota é cair no mesmo buraco do foi-por-pouco. Perder o nome na boca da paixão para ganhar o beijo na boca do amor. Eu fui amado. A derrota de quem ama demais.
E a tarde cai sonolenta e profunda. Não há eco que ressoe a minha salvação, mas há uma voz que diz “teu filho, teu filho, teu filho” e eu assisto acontecer outra vez. A perda da glória na beleza do anonimato. A solidão de uma costura sem linha. A mímica de uma vida. Está acontecendo outra vez, é nítido e inescapável, é o peso da morte que sacode o meu juízo. Eu quero gritar e não consigo. Eu quero parar e não consigo. E o meu corpo que segue se movendo. E os passos que eu sigo dando. E o ritmo que eu sigo acelerando. E o estádio que agora segue olhando. E o público que seguirá me analisando. E os passos que eu sigo dando e os passos que eu sigo dando e os passos que eu sigo dando e os pés que eu sigo maltratando e os dedos que eu sigo sangrando e o mundo que segue me olhando e o preço que eu sigo pagando e a glória que segue se dissipando e meu corpo que segue se mutilando e o ar que eu sigo respirando eu sigo respirando eu sigo respirando eu sigo respirando e o mundo segue girando e girando e girando e as cores seguem se apagando e a luz segue se dissipando e girando e girando
e girando
e girando
e girando
e girando
entretanto
desacelerando
trotando
marchando
caminhando
andando
chorando
meu filho
cantando
falando
dançando
brilhando
festejando
abraçando
amando
meu filho que segue me amando.
Dispenso carinhos e sigo o meu caminho. A derrota de quem ama demais. Refiz os destinos. O brilho da lua ainda paira sobre mim. Está acontecendo outra vez, mas tudo mudou. O mundo girou, enfim. E os passos que eu sigo dando não são passos que seguem sangrando. O corpo queima, verão eterno, ouro do traço. Por muito pouco, isso é um fato. A brecha se abre outra vez.

